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Terra Blog

22.08.07

Fuga

Eu piso macio, encaixo a chave na fechadura, pelo menos tento, ela teima em não entrar. O meu olhar se confunde e tudo que eu olho é tão confuso. Fecho os olhos respiro fundo e espiro aliviado..., a chave entrou. Seguro a penca e vou destrancando lentamente para fazer o mínimo de barulho, já é tarde e a luz do corredor queimou, acho que não vou ser descoberto.

Minha mãe ainda está na cozinha, fumando e tomando café pra variar e só pra variar... “isso são horas?”, ela pergunta meio irritada, meio aliviada. Eu invento uma desculpa qualquer e sigo para o banheiro, não posso dar brecha pra ela puxar assunto, seja lá qual for o assunto.

Até o banheiro meu andar é sem norte, meio bambo, no caminho esqueço até pra onde estou indo, só quando chego ao meu quarto e deito me lembro que não era deitar o que queria e nem podia, mas ainda assim insisto, continuo deitado, mas nada pára quieto, fecho os olhos, abro novamente, não dá!

Tenho que pelo menos tomar uma ducha fria antes de tentar dormir. Está frio, mas eu não o sinto tanto. De cabeça e tudo vamos lá, 1, 2 e... 3.

Mais um final de semana, por que será que insisto em fugir deles?

Silvio Roberto

  • criado por  eu_lirico criado por eu_lirico
  • Postado em 08:36:46

06.08.07

Inclusão

Se tem uma coisa que eu aprendi estudando física, essa coisa, com certeza, é que tudo é relativo, mas bem que podia ser mais simples. Pra que tanta relatividade? Por causa disso não consigo nem, mais, pensar em mim e desisto. Eu acabo acreditando nessa coisa de destino.

Não gosto muito de pensar sobre essas coisas, não sei nem porque estou escrevendo isso aqui. Com certeza no final vocês não vão entender nada, eu também não e vamos ficar morrendo de raiva e transtornados com essa coisa de realidade mutável.

Sinto-me estranho, impotente, decepcionado quando paro pra pensar nesses assuntos... “cabeça”. Ai vem o desespero (“... machucando o coração” eu sei que vocês vão pesar nisso) e começo a acreditar que tudo é apenas fruto da imaginação de uma pessoa bem mais criativa do que eu.

Ah, deixa pra lá! Melhor não apressar as coisas.

Silvio Roberto

  • criado por  eu_lirico criado por eu_lirico
  • Postado em 09:44:33

23.07.07

Vá com Deus ou ganhe seus infernos

Em pleno mês da independência da Bahia, nos tornamos, na ultima sexta feira, um pouco mais independentes. Ele, você sabe quem, morreu e logo a notícia se espalhou ninguém agüentava mais esperar, “Ali é ruim de morrer, viu meu peixe?”, dizia seu Paulo toda vez que eu o noticiava que ele, você sabe quem, estava na UTI.

Acordei cedo e liguei logo o computador, entrei no messenger e prontamente um colega veio me dizendo, “rapaz ACM morreu”, como eu já tinha perdido as esperanças fui buscar na internet alguma notícia sobre... você sabe quem. Alguns sites diziam que sim, ele tinha morrido, outros diziam que não, que ele permanecia respirando com ajuda de aparelhos e eu já ia voltar para cama quando ouço: pan pan pan panranranpaaan pan pan pan panranranpan pan paaan. Era o plantão da Rede Globo. Agora era fato.

Eu fiquei um tempo parado, “pode ser alarme falso”, pensei. Quando olhei na janela já vinha de lá algumas pessoas gritando à morte do nosso senador e então a ficha caiu, confesso que felicidade não era o que eu sentia naquela hora, mas também não poderia ficar triste com a morte de uma pessoa que roubou e matou, por tanto tempo, pessoas.

Alguns choravam com se tivesse perdendo o pai, outros comemoravam como se tivesse o primeiro filho. Na televisão o pai que deixava órfãos todos os baianos e na minha rua um coro de pessoas felizes com a morte de outra, para quem fizeram até uma homenagem póstuma, um bordão que se repetiu por muitas vezes, que dizia:

- EU EU EU, ACM se fudeu!

Silvio Roberto

  • criado por  eu_lirico criado por eu_lirico
  • Postado em 23:27:49

09.07.07

O que você pensa no banheiro?

Ah o banheiro... Eu digo que é o grande celeiro de pensamentos e inspirações, viagens e descobertas. Em nenhum lugar da sua casa você pensa e produz tanto. Aqueles azulejos, aquela acústica, tudo conspira a favor da produtividade e da florescência da criatividade, não é?

Eu por exemplo adoro o meu banheiro, pra mim é o melhor lugar da casa para tocar violão, guitarra, baixo, enfim o que tiver com corda no momento. Cantar também! O retorno é ótimo, mas o que me deixa de fato intrigado, que é lá, no sanitário, onde componho a maioria das minhas canções (para quem não sabe, eu sou “músico”, toco em duas bandas) ou pelo menos penso em alguma coisa: melodias, palavras-chave, frases. Quando me esqueço de levar o violão, fico pensando em novos temas para o blog.

Tudo começa quando ainda somos crianças. Qual foi o garoto, com seus seis ou sete anos, que não ficava no banheiro pensando nas jogadas que seriam executadas, naquela tarde, no campinho? Eu ficava. E as meninas? Tenho certeza que todas elas ficavam tramando planos mirabolantes para convencer os garotos de que beijar não era nojento.

O tempo vai passando e chega a adolescência, uma fase mágica e repleta de novidades. Essa, pra mim, é a fase mais criativa das nossas vidas e o banheiro, claro, é o nosso lugar predileto. Nos rapazes é mais perceptível esse montante criativo e o apego ao toalete. Perceba que mesmo sem nada de muito urgente para fazer lá, eles precisam estar num lugar que os inspirem e passam horas penteando os cabelos. As mocinhas dizem que não pensam em nada de mais nessa fase, mas eu tenho quase certeza que pensam.

Escritores escrevem, cantores cantam, músicos compõem. De fato, o banheiro é um lugar inspirador, mas tem também aquelas pessoas que devem pensar em nada, mesmo estando nesse lugar mágico. Os nossos políticos, por exemplo, pensam em que, quando estão no banheiro? Eles não conseguem nem pensar num lugar discreto pra guardar o dinheiro. Eles devem ir lá só deixar o que acumulam na cabeça.

Silvio Roberto


Links das minhas bandas:
www.myspace.com/dellasfrias
www.myspace.com/quertetodecinco

  • criado por  eu_lirico criado por eu_lirico
  • Postado em 22:53:54

02.07.07

Que tal se perder por ai?

O que é que eu vim fazer aqui mesmo? Essa é a questão que eu sempre me faço ao perceber que entrei no shopping center. Mesmo quando não tenho nada pra fazer lá, mesmo sem dinheiro, é quase inevitável dar uma entradinha. Basta passar pela frente dele sem muita coisa pra fazer, e quando percebo é tarde demais, já estou perdido por entre aquelas vitrines, luzes e corredores.

Tudo no shopping parece ser feito com o objetivo de lhe manter o máximo de tempo dentro dele. As vitrines, por exemplo, funcionam como os canais de uma TV a cabo. A cada passo uma novidade, que lhe impressiona e lhe faz esquecer-se do tempo e espaço, além de fazer você se perder naquele amontoado de liquidações, novidades estilísticas e ilusões.

Você agora não precisa de mais nada, só ficar olhando aquelas vitrines, mesmo sem saber por que as olha e por que quer tanto o que elas pretendem te vender. Eu acho que funciona como uma espécie de hipnose, que te prende e faz você nem perceber que o dia já passou, a não ser quando, por um descuido do próprio shopping, você senti vontade de olhar o relógio e... “Zooooorra, já!?” Você exclama assustado, mas resolvi ficar mais um pouco e fazer um lanchinho na praça de alimentação.

Aqui na minha cidade (eu moro em Salvador, na Bahia), recentemente inauguraram um novo shopping, o “Salvador Shopping” ou “Shopping Salvador”, não sei. Ele é muito maior do que os outros daqui e muito mais fácil de se perder nele também. Na primeira vez que fui lá, entrei e só na hora que resolvi ir embora é que percebi que eu já andava na direção contrária de quando cheguei e já não sabia como sair de lá.

Outra coisa que me impressionou, além do seu gigantismo e da sua arquitetura enigmática, foi o fato de, durante um mês, uma pergunta ser comum a todas as pessoas, que conversaram comigo depois da inauguração desse shopping. “E ai, já foi no shopping novo?”. No início eu pensei que era uma espécie de campanha publicitária, mas a minha suspeita se desfez no dia que eu fui conhecê-lo. Quando voltei de lá percebi que eu precisava falar com alguém, então mal cheguei em casa, liguei pra minha namorada e... “E ai, já foi no shopping novo?”
O shopping tem alguma coisa de muito estranho que eu não sei o que é, e nem como explicar. Meu pai diz que lá eles têm algo parecido com uma Caipora *, mas eu não sei se é bem isso, acho que nunca vamos saber. Mas acredito mesmo ser essa coisa da hipnose. Através daquelas musiquinhas, que eles colocam nas lojas de departamento, eles devem passar algum tipo de mensagem subliminar.

Silvio Roberto

Caipora*: Ente fantástico do folclore brasileiro, que segundo a lenda atrai as pessoas, através do seu assovio, para dentro da mata fazendo que elas se percam.

  • criado por  eu_lirico criado por eu_lirico
  • Postado em 09:17:10